• Thyrso Guilarducci

Álcool e drogas sempre conflitantes (Parte III)

Updated: Mar 19

É comprovada a perda da coordenação motora quando se dirige sob efeito de álcool e/ou drogas, mesmo aquelas lícitas prescritas por médicos no tratamento de saúde.


O Metabolismo do Álcool

O álcool é absorvido rapidamente pelo estômago e duodeno e, em instantes, cai na circulação sanguínea. Na primeira passagem pelo fígado, começa a ser parcialmente metabolizado, ou seja, o organismo procura formas para livrar-se dele, destruindo suas moléculas e expelindo pequena porcentagem delas pela urina, suor, hálito, etc.


O que sobra desse metabolismo inicial vai exercer sua ação em todo o organismo, pois são necessárias várias passagens pelo fígado para que ele seja destruído completamente.


É no fígado, portanto, que a estrutura química do álcool é alterada e ele é decomposto em gás carbônico e água.


A capacidade do fígado é limitada, mas constante. Leva mais ou menos uma hora para o fígado metabolizar um copo de vinho e não há nada que se possa fazer para acelerar esse processo. Então, se a pessoa tomou dez copos de vinho, vai ficar com álcool no sangue por pelo menos 10 horas.


As pessoas perguntam se glicose ou café forte, por exemplo, ajudam a eliminar o álcool mais depressa. Isso não acontece sob hipótese alguma.


Ter conhecimento dessas características do metabolismo do álcool é muito importante para estabelecer um parâmetro em relação ao beber e dirigir.


Quem bebeu um copo de chope ou de vinho deve esperar pelo menos uma hora para poder dirigir um veículo com mais segurança (dependendo das reações de cada indivíduo).


Quem não faz isso resulta numa conta de alto preço que se paga por esse descaso.

O número de mortes de jovens relacionadas ao beber e dirigir é muito grande. Os dados são assustadores. Cerca de 50 mil brasileiros morrem por ano nesse tipo de acidente, mais ou menos o mesmo número de soldados mortos na Guerra do Vietnã.


Essas informações devem ser enfatizadas até se integrarem no dia a dia das pessoas para que elas se conscientizem e se programem corretamente.


Se vão a um restaurante ou a um bar e bebem dois ou três copos de vinho ou de cerveja, precisam saber que o melhor é esperar o efeito do álcool desaparecer antes de pegar o carro outra vez ou, então, deixar que outra pessoa dirija em seu lugar.


Se o fígado for continuamente estimulado por longos períodos de exposição ao álcool, nem sempre dará conta de eliminá-lo por completo sem ser lesado.


Dentro do processo de entrar álcool e sair CO2, existe a formação de uma substância intermediária, o acetaldeído, que é muito mais tóxica e lesiva para o fígado e para o organismo como um todo do que o próprio álcool.


Na realidade, o álcool é uma droga que age do fio de cabelo até o dedão do pé, mas a ação farmacológica inicial mais identificável é o efeito cerebral caracterizado por certo torpor e sensação de relaxamento.


Em doses baixas, o efeito pode ser até agradável. No entanto, se as doses forem aumentadas agudamente, além do efeito relaxante ocorre torpor mais intenso e até coma alcoólico, que é raro, mas não improvável.


O álcool age em vários sistemas químicos cerebrais. Sua primeira ação é sobre a química do controle da ansiedade, o sistema GABA. A pessoa fica mais relaxada, tende a filtrar os estímulos e por isso interage melhor com os outros.


Se ela chegou à festa muito ansiosa, com medo de ser criticada ou de estabelecer relações, uma pequena dose de álcool irá relaxá-la um pouco e a tornará menos perceptiva em relação aos outros e mais em contato consigo mesma.


O álcool é uma substância complexa com ação farmacológica muito variada. A partir do momento em que o consumo aumenta, ele pode agir não só no sistema de relaxamento, mas em outros sistemas do cérebro.


Dependendo da quantidade ingerida e da química cerebral de cada pessoa em particular, o relaxamento inicial pode dar lugar à sonolência ou a muita agressividade.


Vários fatores podem facilitar ou não a absorção do álcool. Obviamente se a pessoa beber de estômago vazio, a absorção será muito maior. Por isso, muitos costumam tomar uma colher de azeite ou comer uma barra de chocolate antes do primeiro trago. Esses truques funcionam porque a gordura ou o alimento dificultam a absorção do álcool pelas paredes do estômago.


O bêbado é sempre muito emotivo


Fica muito emotivo e chora com facilidade. Essas diferenças de ação do álcool variam muito de pessoa para pessoa de acordo com a química cerebral de cada uma.


Nem todo o mundo reage da mesma forma. A maioria responde a baixas doses de álcool com relaxamento leve e agradável.


Uma minoria, porém, mesmo com baixas doses, fica muito violenta. Meio copo de cerveja pode desencadear reações totalmente descontroladas. É o que se chama de intoxicação patológica.


Padrão de Consumo


Sem dúvida. O alcoolismo está fundamentalmente associado à ação farmacológica do álcool no cérebro.


Quanto mais rápida for essa ação, maior a possibilidade de o efeito poderoso e reforçador do álcool desenvolver uma série de mudanças químicas no cérebro que produzirão a dependência. Isso vale para todas as drogas. Quanto mais rápida a absorção, maior o potencial de gerar dependência.


Veja o exemplo do crack e da cocaína. O crack nada mais é do que pedras de cocaína fumadas num cachimbo. Como a fumaça em segundos atinge o cérebro, o crack causa muito mais dependência do que a cocaína consumida por via nasal.


A mesma coisa acontece com o álcool. Se a pessoa beber um destilado de uma só vez, a absorção é rápida assim como é rápido o efeito, e o potencial desse padrão de consumo gerar dependência é muitas vezes maior do que o dos degustadores de vinho, que fazem do beber sua profissão, já que experimentam o vinho, analisam sua complexidade e jogam fora o álcool para evitar intoxicação.


Por isso, o padrão de consumo de uma substância, às vezes, é mais importante do que a própria substância para provocar dependência. À medida que a pessoa vai ficando dependente, desenvolve a necessidade de obter o efeito mais rápido e poderoso do álcool. Quanto mais valoriza o efeito farmacológico do álcool, mais se aproxima do espectro da dependência. Saborear um vinho vira coisa sem significado, porque a bebida deixa de ser uma das inúmeras fontes de prazer e se torna uma necessidade


O bêbado inconveniente!


É desagradável conversar com uma pessoa alcoolizada. Articula mal as palavras e o pensamento fica comprometido. O que acontece com a estrutura do raciocínio nessas pessoas?


O efeito paradoxal do álcool no cérebro é a falsa sensação de certa euforia e bem-estar que ele produz. A tendência é a pessoa imaginar que está falando coisas muito interessantes, perseverar na repetição das ideias e rir do que não tem graça. Seu pensamento fica empobrecido, mas ela não se dá conta disso.


É muito ruim o convívio de quem não bebeu com alguém que esteja alcoolizado.


O processo mental de pensar, sentir, raciocinar, planejar fica marcantemente alterado sob o efeito do álcool. Alcoolizadas as pessoas não elaboram emoções nem pensamentos complexos, porque desenvolvem certa rigidez de pensamento.


Por isso, pessoas intoxicadas alegres e felizes podem tornar-se violentas num instante se algo estranho ou diferente acontecer, uma vez que perderam a agilidade e a flexibilidade do pensamento.


Isso explica um pouco o número significativo de mortes que ocorrem em bares na periferia de São Paulo. Os homens estão bebendo aparentemente em paz, mas basta que alguém fale mal do time do coração de um deles para que este saque o revólver e dispare um tiro.


É uma situação de violência provocada pelo conceito cultural de lazer ligado aos bares e pela ação farmacológica do álcool que engessa muitos processos mentais.


Efeitos do álcool sobre a memória


Os danos que o álcool produz a médio e longo prazo no organismo são os mais importantes. As pessoas em geral se preocupam com o efeito do álcool no fígado, mas o dano que ele provoca no cérebro, especificamente na memória, é muito mais grave e mais comum.


Exames neuropsicológicos que avaliam a memória e outras funções cerebrais em pessoas não necessariamente dependentes de álcool, mas que tomam três doses de uísque por dia, comprovam a existência de danos sutis na memória e na rigidez do pensamento, que elas não percebem ou atribuem ao processo natural do envelhecimento.





A evolução pode ser lenta, mas o uso nocivo do álcool dentro desse padrão médio de consumo já acarretou com certeza distúrbios cerebrais.


O distúrbio cerebral


Na intoxicação aguda, isso é muito nítido. Muitas vezes, a pessoa não se lembra do caminho que fez para chegar em casa, nem de nada que fez enquanto estava embriagada.


Esse fenômeno se chama blackout ou apagamento. Parece que o álcool inunda algumas áreas do cérebro e produz esse efeito.


Esse é um momento bastante perigoso na vida dessas pessoas, porque ocorreu um dano cerebral agudo que as expõe a grandes riscos.


Dirigir veículo intoxicada dessa forma, por exemplo, aumenta enormemente a probabilidade de acidentes graves, porque os reflexos são toscos e as reações lentificadas.

Absorção do álcool nos dois sexos


Um trabalho americano mostrou que, se uma mulher tomar uma cerveja, o efeito será igual ao do homem que tomou duas cervejas. De modo geral, é mais ou menos isso.


O efeito de uma cerveja no corpo de uma mulher equivale ao efeito de duas cervejas tomadas por um homem de mesmo peso corpóreo que ela.


É uma diferença muito grande. Imagine uma mulher miudinha e um homem grandalhão bebendo a mesma quantidade de álcool. Nela o estrago será muito maior.


Por isso, mesmo que o tempo de ingestão e a quantidade ingerida sejam parecidos, nas mulheres que procuram tratamento por causa de problemas com o uso do álcool, os danos biológicos são muito maiores do que nos homens.


Esse é um fator importante a considerar. A socialização da mulher que hoje transita por bares e festas com mais naturalidade colocou-a em contato com a bebida à semelhança do que ocorreu com a população masculina.


Resultado: número significativo de moças está se expondo mais aos danos biológicos do álcool.


Realmente o tema das dependências alcoólicas e químicas com o ato de dirigir são sérias ameaças à sociedade. Continuarei no próximo post desta série.


Obrigado pela leitura


Thyrso Guilarducci

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