• Thyrso Guilarducci

Comportamento Agressivo no Trânsito

Um paralelo com a psicologia

Antes de aprofundar na questão em si, vale reafirmar que a relação humana com o trânsito é um ramo de estudos na psicologia que teve início em 1910 pelo Doutor Hugo Müstemberg, polonês radicado nos Estados Unidos e que criou a Psicologia Forense e foi o pioneiro ao submeter os condutores dos bondes da cidade de New York USA aos testes de habilidade e inteligência, na época ainda aluno na Universidade de Harvard, conforme pesquisas por uma das mais expressivas autoridades na psicologia de trânsito no Brasil, Dr. Reinier Johannes Antonius Rozestraten, Filósofo, Teólogo e Doutor em Psicologia, holandês naturalizado brasileiro.

A estreita relação do homem com o ambiente é tão expressiva e de alto grau de importância que o próprio Rozestraten afirmava ser indissociável essa relação e cita as necessidades básicas, como até mesmo o ar para respirar. Nessa linha do tempo, desde os primórdios existenciais humanos o homem interagiu com ambiente superando assim as dificuldades pela sobrevivência.


As raízes da violência no trânsito, respeitadas as transformações sociais e tecnológicas, não são recentes ou coincidentes com a indústria automotiva. A história da Humanidade possui registros de que Júlio César, Imperador Romano cerca de 100 anos AC limitou a quantidade de carroças autorizadas a entrar em Roma. Leonardo Da Vinci projetou níveis diferentes para as ruas e calçadas, solução vigente até a nossa era.


Ainda mais antigamente, na Mesopotâmia, cerca de 4.000 AC já existiam tabuletas com hieróglifos advertindo que se os viajantes deixassem seus veículos de rodas em ruas pavimentadas para as procissões era uma infração punida com pena de morte.


A Evolução nem tanto positiva


Diferente dos demais animais, a sociedade humana tornou-se mais evoluída e complexa em termos de ambiente, incluindo instintos egoístas que transpuseram o tempo e se refletem nos conflitos diários no trânsito de agora.


O comportamento social foi e é amparado por uma infinidade de normas e regras. Isso exige constantes adaptações ao ponto de fundamentar praticamente todos os ensinos ao longo da vida. Não é diferente no trânsito.


Não é nenhum fato novo trazer essa afirmação que já sabemos historicamente pelo dia a dia que o trânsito no Brasil é um retrato explícito da violência desmedida, quer seja pelos condutores dos mais diversos tipos de veículos assim como pedestres nas mais diferentes atitudes de riscos e indiretamente por muitos administradores públicos que se omitem ou desviam das obrigações sociais.


Buscando entender algum significado que possa explicar esse comportamento social tão nocivo à sociedade e por ela mesmo praticada, encontrei algumas linhas interessantes afirmadas por especialistas na área da psicologia, mais especificamente na espetacular Obra Literária Comportamento Humano no Trânsito, de autoria de três exponenciais referências em psicologia no trânsito, Maria Helena Hoffmann, Roberto Moraes Cruz e João Carlos Alchieri que organizaram uma coletânea de Artigos abordando muitos aspectos comportamentais em 22 capítulos e ainda enriquecidos com mais 17 convidados, todos referências expressivas na área em questão.



Destacando um desses capítulos, mais especificamente “Comportamento Agressivo e Acidentes no Trânsito” por Maria Helena Hoffmann e Eduardo José Legal, afirmam que o homem ou a mulher ao volante é um ser humano que dentro de suas personalidades e necessidades psicológicas e socioculturais, deveriam atuar dentro de um equilíbrio, todavia com a existência de psicopatologias (transtornos diversos) levam consciente ou não para os seus comportamentos no trânsito, quer seja dirigindo ou como pedestre atitudes que resultam em agressões a si e a terceiros.



Os desafios possuem raízes no sistema de equilíbrio que se dividem em dois: adaptação ao meio modificando seu equilíbrio interior aceitando que cometeu erros e equívocos reagido para ajustamento ou então reage contra o meio que o ameaça mantendo o equilíbrio interior, mesmo que incongruente com as leis, o bom senso e as normas sociais.


Na primeira situação de modo geral é menos complicado. Entende-se como um obstáculo a ser vencido. Assim, as correções permitem retomar o equilíbrio normal pautado pelo senso comum da sociabilidade.

No contraponto, as exigências podem representar ao indivíduo muito excessivas, tão elevadas que caso aceite, sentir-se-á desajustado interiormente. Esse estágio normalmente causa um estresse como resultado básico.


Essa dualidade de situações leva o organismo para duas respostas vibrantes: luta ou fuga. A fuga, quando possível, possibilita a pessoa a recompor-se num afastamento momentâneo do cenário a tempo de organizar uma resposta adequada. Caso perceba que a fuga não seja o meio, desafiando o obstáculo, há uma luta (enfrentamento) que pode render quatro resultados:


Em resumo, quando mais uma pessoa possua capacidade de adaptação ao meio, mais saudável será interiormente.


A PSICOLOGIA SOCIAL SOBRE O TRÂNSITO



Detentora de uma infinidade de credenciais no campo da psicologia e em diversos órgãos de trânsito no país, a Dra. Adriane Picchetto Machado é uma das vinte participantes do Livro Comportamento Humano no Trânsito, organizado por Maria Helena Hoffmann, Roberto Moraes Cruz e João Carlos Alchieri, assinando integralmente o Capítulo 7 que é exatamente o título na imagem acima.


Segundo a Dra. Adriane, a Psicologia Social é uma área da Psicologia preocupada com a análise da realidade social, política e histórica de uma determinada comunidade, estudando a interação humana, entre indivíduos, grupos e sociedade. Aborda o intercâmbio existente entre indivíduo e grupo - o quanto um interfere no outro - e a importância do grupo social imediato na formação do indivíduo. Preocupa-se com questões como:

  • Como nos tornamos sociais?

  • Como aprendemos o mundo que nos cerca?

  • Como transmitimos os valores para a geração seguinte?

Assim, toda a Psicologia é Social.


Prossegue a Dra. Adriane afirmando que o ser humano possui uma dimensão inerente: sua condição social e histórica para não distorcer a visão (ideológica).

Por essa razão o objetivo da psicologia social é conhecer o indivíduo no conjunto das suas relações sociais, especificamente ou não. Destaca-se a inclusão da motivação das mudanças na sociedade em que vive, logicamente interferindo na política, consciência e da cidadania.


O Trânsito é uma Questão Social


O trânsito não pode ser segregado da realidade histórica, política, social, diária e continuamente: os conflitos existentes na nossa sociedade, a competição, falta de educação, diferença das classes, consumismo e ausência de solidariedade, pouca consciência social, a cidadania, o pouco senso comunitário.


Na sua pesquisa, cita o livro "O Que é Trânsito" (Editora Brasiliense de Eduardo Alcantara Vasconcelos) de onde extraiu:


O trânsito é uma disputa pelo espaço físico, que reflete uma disputa pelo tempo e pelo acesso aos equipamentos urbanos - é uma negociação permanente do espaço, coletiva e conflituosa.

E essa negociação, dadas as características de nossa sociedade, não se dá entre pessoas iguais; a disputa pelo espaço tem uma base ideológica e política; depende de como as pessoas se veem na sociedade e de seu acesso real ao poder.

Assim, o trânsito não paira acima da sociedade, sendo então, fruto dela. Fruto de uma sociedade desigual, hierarquizada, desorganizada, carente de valores éticos e morais, isto é, desumanizada.


Crédito: Pixabay


O Caos no Trânsito é Obra de Anos


A situação caótica percebida no trânsito se reflete na frase "O Caos é obra de Anos", isto é, há um fundamento histórico para termos a realidade atual; caos não é uma obra do acaso, e sim, de uma história social. Todas as dificuldades apontadas sobre o trânsito refletem, com certeza, um motivo anterior, uma explicação compreensível para a situação atual.


É inegável que o Brasil fez, em determinado momento de sua história. uma opção [elo transporte terrestre de cargas (caminhões) e individualmente (automóveis) e que o poder público (prefeitos, governadores, legisladores) primaram pela organização das cidades para os veículos e não para as pessoas, para o "privado" e não para o "público".



O quadro de engarrafamentos, poluição, falência do transporte coletivo e quase ausência de transporte fluvial, marítimo ou ferroviário é um reflexo direto da opção pela intensa motorização, pelo incentivo à indústria automotiva e das suas terríveis consequências para o transporte no Brasil.


Da mesma forma, qualquer tentativa de modificação da realidade atual, irá passar obrigatoriamente por uma mudança na visão a respeito do transporte, retomando-se o papel utilitário dos veículos e buscando-se encerrar ou minimizar o "culto ao automóvel" tão latente em nossa sociedade.


É preciso que se desenvolvam ações no sentido do não-dirigir, à atuais exemplos de países europeus e as políticas de transporte e trânsito deveriam questionar esta opção automotiva reabilitando as possibilidades do transporte público.


Destaco além da narrativa da Dra. Adriane, que a recente profusão de veículos elétricos, tanto de carga como de passageiros e cargas são excelentes alternativas ao combustível petrolífero como diesel e gasolina. Mesmo os híbridos já são uma boa parcela de ganhos no sentido da sustentabilidade e menores emissões de Co2, porém nem esses veículos, incluindo os autônomos serão as repostas para a solução no caos do trânsito. A tecnologia pode ser nova mas a fluidez no trânsito não se altera com esses veículos hitech.


Somente o transporte coletivo é que efetivamente substituirá um contingente de veículos particulares com ocupação média de apenas 1,4 pessoas embarcadas contra 50 nos coletivos.


Dessa forma, o espaço público é organizado para o automóvel e não para os pedestres, ciclistas e outros não motorizados. Se o espaço é orientado para o automóvel, é também para a velocidade e os outros participantes tornam-se fortemente ameaçados e tornando o espaço público um local de perigo constante, segundo a visão de defensores de um trânsito mais humano.


O dono de um veículo sente-se com mais direito à circulação do que um pedestre, por exemplo. Assim como um profissional do trânsito (caminhoneiro ou motorista de ônibus) acham-se acima dos direitos dos ciclistas ou motociclistas.


Essas percepções diferenciadas encontram-se ligadas diretamente às características autoritárias da nossa sociedade, na qual os direitos são sempre muito lembrados, porém, os deveres de cada cidadão ficam relegados a um segundo plano, quase que esquecidos pelos participantes da comunidade em geral.


Relação Público x Privado


Essa relação é, em geral, extremamente complexa em nosso país e se reflete no trânsito de forma intensa e bastante clara.


A Dra. Adriane menciona outra referência no tema, Roberto DaMatta, antropologista brasileiro em suas obras "O que faz o Brasil, Brasil?" e "A Casa & a Rua" onde afirma que os espaços públicos são muito mais que apenas locais geográficos. São sim, espaços carregados de sentido, ou melhor, duas "categorias sociológicas" que revelam como a nossa sociedade pensa e vive.


O Mundo da Casa (Espaço Privado) pode ser definido como o local da moradia, da calma e da tranquilidade. É o refúgio em que o participante do grupo é membro perpétuo de uma corporação. (Em casa somos únicos e insubstituíveis. Tudo em casa é belo, bom e decente segundo DaMatta)



Em contrapartida, o Mundo da Rua é o espaço reservado ao movimento, ao perigo, à tentação, ao logro. Na rua as pessoas são indiferenciadas e desconhecidas, podemos dizer que os indivíduos não têm nome nem face. Nós nos referimos a eles em termos genéricos (como “povo” e “massa”). É o lugar da luta (trabalho ou batente), da batalha, onde a “dureza da vida” pode ser melhor percebida ou sentida. “É o mundo tenebroso da selva de pedra”.


O mundo da Rua ou Espaço Público, como tratamos neste texto, é assustador: ninguém quer ser chamado de “moleque de rua” ou para uma moça ser vista como uma “mulher da rua” é o mesmo que mulher da vida. Muitas pessoas têm medo de desmaiar, ter ataque ou, pior do que tudo isso, morrer fora e longe de casa.


Devemos levar em consideração que o espaço público é perigoso porque é fundado na lei que iguala, subordina e muitas vezes explora. É o local onde eu não posso me definir por meio da minha relação com alguém ou alguma instituição. O homem moderno encontra-se no cruzamento de duas vias: a vida privada e a vida pública onde vive a duplicidade de sua natureza social: a de ser indivíduo e cidadão. Nesse trânsito, os sinais são simultâneos: compõe-se de direitos e deveres sociais.


Sempre existiram e existem conflitos quando se relacionam os interesses particulares e os interesses comuns, isto é, o que eu quero como indivíduo para o meu bem e o que é melhor para a minha comunidade, pensando, nesse momento, como cidadão. Esses interesses são muitas vezes difíceis de conciliar: por exemplo, eu quero ir até determinado lugar e tenho de aguardar os sinais de trânsito ficarem verdes para mim, dando direto à passagem para outros motoristas que têm a mesma pretensão que eu. Porém, se por algum motivo o sinal demora mais para o outro lado, meus interesses se sobrepõe à minha sensatez e sinto-me automaticamente lesado.


Vivemos em uma sociedade na qual existe uma espécie de combate entre o mundo público, das leis universais e do mercado e o universo privado da família, dos compadres, parentes e amigos. No Brasil, pode-se verificar que, de modo geral, há um forte sentimento de inconsciência social quanto ao respeito à coisa pública e ao que reza o costume o costume do bem comum.


O que é de todos (público) parece ser de ninguém. O mundo público não é visto como “meu”, é como uma “terra de ninguém”, na qual as leis ou regras são flexíveis demais para serem cumpridas; no espaço público tudo pode, tudo é permitido. Daí, nos centros urbanos, os problemas de vandalismo: milhares de orelhões foram destruídos todos os dias (quando existiam), placas de trânsito pichadas nas cidades e perfuradas à bala nas rodovias para “tiro ao alvo”. Cones e cavaletes usados pelos Agentes de Trânsito nas pistas são roubados etc.


Imagem G1 - Globo


Existem trabalhos que analisam a origem deste fenômeno, em que podemos enumerar algumas explicações:


No Brasil, ainda temos desenvolvida a cultura da cidadania: as pessoas tendem a perceber o poder público muito distanciado, sem qualquer oportunidade de participação efetiva nos rumos das suas gestões. Ainda as relações com o mundo público são marcadas pelo clientelismo, pelos favores, pelos compadres e amigos. Historicamente, não tivemos a prática da cidadania no nosso dia a dia, principalmente nos anos de repressão do governo militar, de onde saímos recentemente.


O estabelecimento da cultura da impunidade, na qual os direitos e deveres são desiguais, dependendo do poder econômico e das relações privadas que as pessoas têm entre si. A fraqueza da lei social traz como reflexo imediato a cultura do individualismo de “levar vantagem em tudo”, do “você sabe com quem você está falando?”, do “jeitinho brasileiro”, do “agrado”, da cultura da “malandragem”. Isso gera grandes problemas em relação ao universalismo das regras e leis, já que nosso país, o universal é particular, isto é, o universo dos parentes, amigos e compadres e onde, com certeza, a lei não é para todos.


Esse embate entre o mundo público e privado leva a uma profunda problemática atual: segundo Roberto Pompeu de Toledo no seu ensaio “Sobre Ônibus, Metrô e Ordem Social”, um apartheid social que caracteriza o Brasil.



Uma das suas expressões mais visíveis é o abandono por parte dos mais ricos, dos espaços públicos: a escola pública, o sistema de saúde público, mesmo a segurança pública e o Transporte Público.
Os ricos criam seus sistemas particulares. O que é público fica reservado ao pobres, como se fosse uma benemerência do Estado, uma obra de caridade, não um serviço a retribuir pelos impostos pagos. O resultado não é apenas que os dois lados nunca se cruzam, pois a um deles reservou-se um espaço exclusivo. É também que a escola pública, o hospital ou transporte público ficam condenados a serviços de segunda classe, privados que foram das pressões de quem mais influência tem na sociedade/ Se os ricos tivessem de usá-los o padrão de exigência sobre eles seria outro.

A Cultura da Violência


Todos somos sabedores das problemáticas em relação à violência no Brasil. Sabemos que a violência se constitui um grande problema de saúde pública nos tempos atuais e a psicologia social tem se preocupado em estudar esse fenômeno.


O Ser humano é agressivo sendo a agressividade um impulso que movimenta o homem para a luta, para a busca de seus desejos.


Este impulso pode direcionar-se para o mundo exterior (objetos ou outras pessoas) ou para o mundo interior, como os impulsos auto agressivos presente em diversos problemas de ordem psicológica.



A educação e os mecanismos sociais da lei e da tradição buscam a subordinação e o controle da agressividade. No processo de socialização, o indivíduo inicia a internalizar os controles, sendo desnecessário o controle externo. Desde criança o ser humano aprende a reprimir, canalizar a agressividade interior para produções positivas: produção intelectual, artística, esporte etc.


A organização social estimula, legitima e mantém diferentes modalidades e violência diluídas no nosso cotidiano:

  • A competição escolar

  • O mercado de trabalho

  • O incentivo à segurança pessoal

  • As guerras

  • O combate ao inimigo religioso e político

É ingênuo pensar na violência somente como a prática de delitos ou criminalidade.


Jurandir Freire Costa no Artigo "O Medo Social" cita um exemplo:



No Rio de Janeiro, uma senhora dirigia o automóvel com o filho ao lado. De repente foi assaltada por um adolescente que a roubou, ameaçando cortar a garganta do garoto. Dias depois, a mesma senhora reconhece o assaltante na rua. Acelera o carro, atropela e mata o assaltante, com a aprovação dos que presenciaram a cena.

Com base nesse exemplo, podemos pensar na violência como uma patologia que contaminou todo o tecido social e hoje se encontra diluída no nosso cotidiano, de forma aterradora: casos de violência na família, na escola, nas empresas, na polícia, nas ruas, bullyings etc.


Na família temos desde situações de agressões de pais a filhos, até de abusos sexuais e torturas psicológicas. Na escola temos a competição, práticas autoritárias, impedimento de pensar de expressar as capacidades.


Nas ruas os nossos velhos conhecidos: trânsito, violência policial, assaltos, sequestros, estupros.


No nosso país, tamanho o descontrole relativo à lei e à ordem, sentimo-nos constantemente ameaçados, amedrontados, torcendo para que a violência urbana não nos capture em alguma das esquinas da nossa vida. O sentimento geral é sempre de alerta, evitando os constantes ataques à nossa integridade física e moral.


Crédito: Pixabay


A violência é um item obrigatório na visão do mundo que recebemos da geração anterior. O medo é o cotidiano dos cidadãos. A arquitetura transforma as casas em refúgio com altos muros e cada vez mais as pessoas de bem se sentem aprisionadas, à mercê dos ladrões, estupradores e traficantes.


Ao mesmo nos encontramos anestesiados, familiarizados, insensibilizados com o que destrói a qualidade de vida à nossa volta, tornando a violência o nosso cotidiano e a mídia possui grande responsabilidade nisso.


Dentro dessa realidade social se encontra o trânsito também expressando uma forma de violência: a violência urbana refletida na impossibilidade de acessar os locais onde se pretende ir e isso atinge o direito de ir e vir de cada cidadão.


Também é no trânsito que a violência mostra a sua face cruel: competição, brigas, agressões, assassinatos por motivos fúteis, desafios às autoridades, infrações, crimes, impunidade, desrespeito pelos semelhantes etc.


Como já pontuamos, o trânsito só pode ser entendido como um reflexo da cultura instalada em uma determinada sociedade: assim, o nosso trânsito é violento porque nossa sociedade é violenta. O desrespeito pelo próximo, a competição e falta de solidariedade “trazemos de casa”, aprendemos ainda muito jovens.


Cada pessoa dirige como é e como vive as mudanças possíveis nesta área passam, inicialmente, por mudanças nas posturas individuais, nos valores transmitidos através de cada uma das gerações e, principalmente, pelo desejo social de construir um trânsito melhor, menos violento e mais humano.



Cidadania


É impossível tentar analisar a questão do trânsito sob a ótica da Psicologia Social sem tocar na questão da cidadania em nosso país. O desenvolvimento de uma consciência social ainda engatinha no Brasil: há pouca consciência que como cidadãos somos membros de uma nação e cada um tem a possibilidade de cobrar o Estado as necessidades que nossa comunidade tem.


O exercício da reivindicação por melhores condições de vida passa pela consciência social, pela compreensão dos interesses comuns e se trata de um fenômeno lento, que depende do desenvolvimento de uma capacidade crítica e de maturidade política.


Em nosso cotidiano damos diversas demonstrações de pouco senso comunitário: assembleias de condomínio sempre vaias, filas desrespeitadas, sinais vermelhos ultrapassados, telefones, placas e bens depredados. São pequenas questões que nos mostram a maturidade política de um povo e do nível de respeito pelos semelhantes e pela coisa pública.


Dessa forma, a conquista da cidadania depende não do governo, mas de pequenas modificações nas condutas individuais, respeitando mais os deveres implícitos no fato de ser um cidadão. O fato de aguardar um semáforo vermelho e só andar quando surgir o verde reflete, na verdade, o respeito pela liberdade de ir e vir do outro, que também esperará a sua vez de transitar.


As ações mais comuns em nosso país são aquelas que buscam trazer vantagens para si mesmo somente com uma conduta individualista e até mesmo egoísta. Por exemplo, qual a consciência de cidadania de um motorista que estaciona seu carro em fila dupla, incomodando diversos outros motoristas? Ou então usando indevidamente as vagas de gestantes, deficientes ou idosos?


O trânsito é, na realidade, um campo onde os fenômenos em relação à falta de senso comunitário mais se evidenciam: pessoas jogando lixo pela janela, ultrapassagens arriscadas e ilegais sem nenhum objetivo (somente para permanecer à frente do outro), ultrapassagem de semáforos vermelhos etc. Conviver e ter consciência social pressupõe considerar o outro em seus desejos e direitos, respeito, solidariedade, generosidade e saber limitar seus interesses em função dos interesses coletivos.


É uma grande aprendizagem que temos pela frente, como nação e a educação passa, obrigatoriamente, pelo exercício dela em casa e na sala de aula, em praticar essas atitudes no dia a dia, em negociar os conflitos, em se unir aos companheiros para atingir um objetivo comum. É preciso que cada um se veja como responsável por mudar este quadro, que cada cidadão, nas menores atitudes, busque o bem comum.



Uma semente de boas expectativas pelas instituições de ensino que estão adotando o Programa EDUCA do ONSV Observatório Nacional de Segurança Viária, capacitando tanto os professores como os alunos para uma nova realidade na educação para o trânsito no Brasil.



Conclusão


Com base nas reflexões habilmente apontadas pela Dra. Adriane, dois caminhos se apresentam: resgatar a nossa relação com a nossa cidade, entender que a cidade se estende muito além da cidade construída, mas é local de espaços públicos carregados de sentido. Afinal, as cidades têm alma.


É preciso que a cidade não seja vista somente como um local de passagem e circulação, mas principalmente, um local de encontro, onde a sociedade se encontre consigo, onde as pessoas convivam com os colegas da fortuna (ou do infortúnio) de viverem na mesma cidade, assim como descrito no Juramento Ateniense que era feito por jovens da antiga Grécia ao atingirem os 17 anos.


Em segundo lugar, precisamos urgentemente resgatar a ideia do espaço urbano como local de democracia, de exercício de cidadania, de respeito e civilidade. É preciso educar as novas e as velhas gerações para o mundo urbano, para a convivência e a solidariedade. Celebrarmos o direito de ser, o direito de conviver e o direito de participar. E isso se aprende em casa, como se diz, se aprende “berço”. Não há melhor fábrica de cidadãos do que a família.


É preciso acreditar que a Educação não serve só a sociedade, mas, principalmente, à mudança social; que o ato humano de educar existe tanto no trabalho pedagógico quanto no ato político por um outro tipo de sociedade, para um outro tipo de mundo, para um outro tipo de trânsito.


Todas as considerações resumidas até este trecho do Artigo dão conta de que a violência no trânsito é um flagelo que se manifesta não unicamente numa grosseria entre motoristas entre si ou envolvendo pedestres. Trata-se de uma das muitas vertentes da violência social que consiste em desrespeito à vida através das infrações de trânsito, dos crimes de trânsito, da falta de solidariedade e cidadania.


O Brasil, assim como mais 187 países estão compromissados em enfrentar um grandioso desafio proposto pela ONU através da última Conferência Interministerial Global da realizada em Estocolmo na Suécia pela redução das mortes e feridos no trânsito. Espera-se pelo menos 50% menos mortes até 2030, dentre as 12 Metas Globais que transformarão a realidade do trânsito positivamente.


Sobre essa decisão mundial, o Brasil adotou o PNATRANS Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito 2021 através da Resolução 870/2021 do CONTRAN. Sobre esse assunto altamente importante eu publiquei no dia 7/10/2021 um Artigo detalhado que pode ser acessado pelo link https://www.safethy.com.br/post/pnatrans


Concluo afirmando que a violência, por menor grau que seja, nunca é inerte e seus efeitos possuem resultados imediatos ou posteriores que inflamam a sociedade pela agressividade e isso não está nas mãos do governo e sim na mente de cada pessoa, motorista ou pedestre, empresário, empregado, funcionário da Administração Pública, enfim do povo como um todo pelo auto controle de suas atitudes visando semear um novo perfil mais humano e respeitoso no trânsito extremamente caótico que possuímos.


Agradeço pela leitura e muito especialmente a Dra. Bianca Cruz , Psicóloga, Observadora Certificada do ONSV Observatório Nacional de Segurança Viária na cidade de Ruy Barbosa, Bahia, pela sua gentileza de enviar a frase logo abaixo sobre uma reflexão pela Segurança no Trânsito.



Um forte abraço e até a próxima publicação!



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